sexta-feira, 29 de março de 2013

Mudanças

Às vezes me pergunto se você ainda lembra de mim. Se meu rosto ou minhas palavras aparecem em pequenos lampejos de memórias antigas ao deitar. Se lembra das nossas promessas e tudo o que planejamos fazer um dia. Se ainda lembra do tom da minha voz, assim como eu lembro do tom da sua; ou se recorda do meu jeito envergonhado depois de dizer que te amo e de como você ria disso, me fazendo corar e rir junto. Das discussões sobre filmes, livros ou sobre aquela série que todos estão assistindo e nós, logicamente, também estamos. Se lembra das minhas tentativas de te fazer sentir ciúmes e de como era fácil te fazer ficar tenso por causa do comentário sobre alguém charmoso. Se ainda lembra como foi fácil me pedir em namoro e de como eu fiquei envergonhada com o pedido, apesar de receosa com o que poderia acontecer. Mas eu deixei acontecer... Você ainda lembra de mim ao menos? Ainda sabe dizer quem sou eu, meu querido?

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Rodopiar


Seus cabelos esvoaçaram com o vento, arrancando-lhe instantaneamente um sorriso. Eu a adorava. Ela pousou os olhos escuros em meu rosto e sorriu novamente, dessa vez um pouco envergonhada, e soltei um longo suspiro. Ao perguntar se eu não tiraria mais fotos, acordei do transe que era ver aquela menina linda e levantei a câmera, capturando seu jeito incrível que me conquistou imediatamente. Não resisti. O vestido branco rodopiou e pude ver suas pernas alvas, seu corpo pequeno e frágil se agitando numa risada gostosa de se ouvir. Aproximando-se, ela pegou gentilmente a câmera de minhas mãos e, olhando cada foto, franzia o pequeno nariz com as que não gostava ao pedir para apagá-las. Respondi que estavam perfeitas. E não somente as fotos. Ela corou de imediato, devolvendo-me a câmera e se afastando. Comecei a cantarolar enquanto a clicava de costas na paisagem espetacular em que estávamos. Devagar, ela parou e se virou para mim, o sorriso estampado no rosto. “Diga”, pediu ao retornar para onde eu estava. Ela baixou a mão que segurava a máquina fotográfica e olhou em meus olhos bem de perto. “Diga”, repetiu. Fiquei calado por um tempo. Sabia que não era necessário dizer o que era evidente. Então, num lampejo de coragem, apenas a beijei. E ela sorriu com isso.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O fato de desejar

Meus pés ficaram gelados rapidamente. Lágrimas começaram a surgir de meus olhos. Meu coração disparou. Não havia motivo para tanto, eu sabia disso. Mas mesmo assim não consegui me conter. Li cada palavra como se fossem as últimas, desejando que o fim não estivesse explícito, pois não aguentaria tanto. Olhei o ponto - que não era o ponto final - e senti uma mistura de sentimentos me invadir. Ódio, saudade, tristeza... Vontade de responder com alguma palavra suja e com significado torpe. Não fiz isso. Apenas chorei, igual aos outros dias em que chorava por causa de lembranças. O vento levou meu cabelo até os olhos e pequenas mexas ficaram presas em minha bochecha, no rastro que as lágrimas deixavam. Sorri meu pior sorriso. Deitei-me na cama e virei o rosto para a parede branca do quarto, as lágrimas não me deixando em paz. Então respondi sinceramente. Não podia inventar mais mentiras, porque aos poucos elas estavam me matando. Adormeci depois de responder. Não lembro que horas eram ou até mesmo o dia. Só lembro que desejava não ter aquela conversa, desejava não ter aqueles sentimentos, desejava apenas poder respirar aliviada mais uma vez...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Imaginar


Já me imaginei com você em mil e uma situações. Conversando cara a cara sobre futilidades e comendo besteira, deitados numa rede só vendo o tempo passar, olhando em seus doces olhos enquanto você sorri envergonhada, roubando beijos em momentos inesperados. Já imaginei nosso primeiro encontro, a timidez tomando conta de ambos, nosso primeiro beijos nos fazendo rir e saindo perfeito só quando a calma se estabelece entre nós. Já te imaginei cantando num karaokê alguma música que dedicas a mim, uma daquelas que te mostrei tempos atrás. Já vivi e revivi milhões de beijos, suas mordidas, o jeito que segura minha mão sem me olhar e todos os olhares bobos e apaixonados que surgem do nada. Já sonhei conosco passando uma noite inteira acordados, falando das aventuras vividas em tão pouco tempo de vida, ou dos seus casos que me deixam enciumado mas que não demonstro. Já te imaginei chegando com alguma camisa nerd e com um lindo sorriso, e então você diz meu nome, aliviada com o encontro. Já imaginei seus dedos macios passeando por meu rosto, sua voz doce dizendo que me ama, fazendo-me ficar completamente enrubescido. Já nos vi sozinhos no quarto, você cantando pra mim, no meu show particular, todas aquelas músicas que remetem a nós, a você e eu, nossos olhares se cruzando e evidenciando aquela louca vontade de largar tudo e somente nos beijarmos... Aquela louca vontade de te ter logo aqui comigo.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Óbvio


Eles andavam de mãos dadas, conversando e sorrindo. Chegaram até o fim do caminho, onde havia um pequeno palco a céu aberto, então ela teve uma ideia e sorriu, puxando-o pela mão até o banco, fazendo-o sentar. Andou até o palco e pôs-se de pé para que todos a vissem.
-Bom início de noite, senhoras e senhores. Que lindo pôr do sol, não? Melhor ainda se você estiver acompanhado de alguém e apaixonado por essa pessoa. E eu posso dizer isso com plena certeza. Amor... O que é isso se não a certeza de estar sempre protegido? Nós humanos temos medo daquilo que pode fracassar, é natural. Temos medo de nos apaixonar, de ser magoado pelo outro e até de magoar esse outro. Mas aí encontramos alguém. E esse alguém te promete o mundo somente com o olhar, promete te fazer a pessoa mais feliz da face da Terra e você acredita. E aos poucos, - ela saiu do palco e foi em direção a ele, fazendo o gesto de pegar seu coração, entregando em suas mãos. – você entrega o que tem de mais precioso para essa pessoa. Porque sabe que ele pode cuidar tão bem quanto você cuida. – e sorriu, voltando ao lugar de onde saíra. – E por mais que essa pessoa diga que não pode fazer nada disso, você apenas sabe... Apenas sabe que quer passar a vida inteira com ela...
As pessoas começaram a aplaudir e ela se curvou, agradecendo a todos por ouvi-la. Desceu do palco e olhou para ele, que falava com um homem qualquer que partiu quando ela se aproximou, sem antes parabeniza-la. Ele segurou sua mão e voltaram a andar como dois namorados completamente apaixonados.
-O que aquele senhor lhe disse? – perguntou sorridente. Ele começou a ficar vermelho e a puxou para um lugar vazio, somente para beijá-la carinhosamente. Ela sabia que quando ele agia assim, era porque queria esconder a vergonha que sentia no momento.
-Você ainda continua vermelho. – riu. – O que ele disse pra te deixar assim?
-Pra eu nunca te perder... Porque igual a você não vou mais encontrar. – respondeu-lhe.
-Homem sábio. – falou rindo mais ainda. Então ela o beijou mais uma vez e disse que o amava. Ele passou os dedos pelo rosto macio e sorriu envergonhado. E em seu coração, afirmou o óbvio: que também a amava.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Somente o tempo


Ele não ficou. Após ter feito com que eu me apaixonasse perdidamente, ele resolveu se ausentar depois de um simples pedido meu: que ficasse presente. Eu sabia que o futuro era incerto, eu sabia que muita coisa poderia acontecer, mas fui egoísta comigo mesma e pedi. As conversas que duravam quase o dia inteiro, a minha luta para ficar acordada muitas noites somente para conversarmos, os sorriso e gestos afundaram-se na areia movediça do tempo. Ainda me recordo dos primeiros dias quando disse-lhe que meu erro era sempre me jogar sem preocupar com o chão e ele disse que não me deixaria cair nunca. Nos últimos dias o discurso já era outro, ele já não queria me deixar pular. Só que eu já havia pulado há bastante tempo. E nesse momento cheguei ao chão e a dor foi terrível. Naquele dia não houve fim estabelecido em palavras. Houve somente o tempo... O tempo da ausência. E esse foi o fim.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Não consegui dormir


Não consegui dormir. Levantei da cama devagar, me desvencilhando dos braços dele para não acordá-lo. Peguei o celular que estava em cima do criado-mudo e fui até o banheiro. 4h47 da madrugada. Lavei o rosto e olhei fixamente para meu reflexo no espelho. Suspirei e voltei para o quarto. Observei o corpo seminu na cama, dormindo profundamente e dei um leve sorriso. Eu amava aquele homem de maneira intensa, igual as personagens idiotas dos livros que vez ou outra eu lia. Puxei uma cadeira para mais próximo da cama e sentei, olhando-o. O que existia era magnifico, mas sabíamos que aquilo duraria pouquíssimo tempo. Algumas imagens surgiram em minha mente. A primeira vez que nos encontramos e ele, meio tímido, depositou um leve beijo em meus lábios. Nossos sorrisos tão grandes, a felicidade exalando algum cheiro que tirou a atenção de todos. O momento em que entramos em sua casa e, longe da visão do mundo, ele me agarrou meio desesperado e me beijou intensamente. Não conseguimos dormir e ficamos acordados a noite toda conversando e aproveitando o tempo perdido...
Estava com lágrimas nos olhos. Não eram lembranças distantes e eu sabia que dentro de poucos dias todo o namoro adolescente, todo o desejo de se estar perto, todas as conversas que duravam horas e todos os beijos roubados no meio ou no fim de cada conversa se tornariam mais lembranças. Uma lágrima escorreu por meu rosto. Abandonei a cadeira e voltei para a cama. Vagarosamente me aconcheguei perto dele, fazendo-o acordar sem querer. Ele me olhou e deu um sorriso sonolento, puxando-me para mais perto. Senti sua respiração em minha testa e ele depositou um leve beijo nela. Pus a cabeça em seu peito e afastei da memória os pensamentos de antes. E me concentrei nele e no calor que sentia ao estar ao seu lado, ao sentir seu toque. Apaguei antes de me lembrar do dia em que nos conhecemos e das palavras que ele guardou para mim... “Teremos uma história muito feliz...”. Sim, nós temos.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Repetir


Chovia forte. Minha calça já estava encharcada, minha meia afogada dentro do All Star, a camisa colada no corpo. Não liguei para esses detalhes, continuei seguindo meu caminho. O som do piano saindo dos fones e entrando em meus ouvidos e meus lábios se mexendo numa cantoria muda, falando cada palavra, cada letra que formava a música. Alguém passou por mim, esbarrando em meu ombro. A dor e a falta de um pedido de desculpas não tirou a atenção do meu caminho. A música se repetiu, trazendo uma enxurrada de lembranças. Junto da chuva, minhas lágrimas iam embora. Continuei andando, as pessoas me olhando de maneira estranha como se o fato de andar sem algo para me proteger da água que caia sem dó do céu fosse inimaginável. Eles não me conheciam e eu não devia satisfações a ninguém. O asfalto deu lugar a areia. Arranquei o sapato de meus pés e senti os grãos molhados entre meus dedos. Dei um sorriso triste. E a música repetiu mais uma vez. Olhei para as ondas que quebravam na praia, a chuva começando a ir embora. Joguei a mochila no chão, não sem antes tirar de dentro dela uma caixa onde guardava as melhores e mais tristes lembranças da minha vida. Voltei a andar, indo direto para a água. Estava morna. Caminhei até onde ela pairasse em minha cintura e então abri a caixa. Papéis, desenhos, objetos que guardava a sete chaves, longe da visão de todos, coisas de uma vida toda que sumiriam em poucos momentos. As lagrimas voltaram mais forte e num acesso de fúria, atirei a caixa longe, tudo se espalhando na água salobra. Mais uma repetição da música. Coloquei a mão em meu rosto tentando conter as lágrimas e sem pensar duas vezes, virei em direção a praia e caminhei. Sentei na areia vendo lembranças preciosas desaparecerem no horizonte. Agarrei minha mochila e soltei um grito contido. Respirei fundo tentando me acalmar de toda aquela fúria misturada à tristeza. Levantei quando a chuva retornou forte. Voltei a andar. A areia deu lugar ao asfalto. E a música repetiu-se novamente.